Minha jornada no Karate é tão curiosa quanto transformadora, e reflete exatamente o conceito do "Karate Pra Vida" ao qual me dedico desde a partida do meu pai. Comecei a treinar ainda criança, mas as lembranças que carrego são fragmentadas: momentos de diversão antes e depois das aulas, e um "durante" que se resumia em apanhar dos faixas pretas que meu pai, incansável em sua busca por me fortalecer, sempre pedia que me testassem.
Na mesma época, meu tio também já plantava sementes de ensinamentos em mim. Nas nossas idas à pesca, que logo se tornaria minha paixão, ele me testava de forma sutil, moldando meu caráter de forma imperceptível, mas profunda. Voltei a treinar Karate na adolescência, e foi nesse período que passei a conviver mais intensamente com meu tio, especialmente durante as férias em Tocantins. Enquanto pescávamos juntos, fui absorvendo o verdadeiro significado do Karate Pra Vida, baseado no exemplo que ele me dava diariamente, sem a necessidade de palavras.
Quando minha mãe faleceu, uma enxurrada de dúvidas sobre o sentido da vida me invadiu. A maior de todas era: por que estamos aqui? Qual o nosso propósito? Busquei respostas em várias religiões, mas ironicamente, encontrei a maior de todas dentro do próprio Karate. Comecei a mergulhar mais profundamente nos treinos e passei a observar mais o comportamento de outros praticantes, buscando não apenas aprimoramento técnico e físico, mas também um entendimento espiritual e filosófico.
Um marco nesse processo foi uma conversa com meu pai, quando perguntei por que ele nunca aceitou o Karate como modalidade olímpica. Suas palavras naquele dia me deram uma nova direção para minhas pesquisas e para a vida. Infelizmente, sua morte precoce acelerou minha jornada de descobertas. A perda do meu tio logo depois me deixou sem chão, sem a bússola que me guiava. Mas, por mais dolorosa que tenha sido essa perda, o convívio intenso com eles me preparou para seguir em frente, tomando decisões por mim mesmo, mas sempre com o legado deles em mente.
Hoje, tenho uma clareza que antes me escapava. O Karate, para mim, transcende socos e pontapés; ele se tornou uma poderosa ferramenta de autocontrole, algo que me deu um propósito de vida. Essa é a missão que agora abraço com todas as minhas forças.